Sanções

Defesa, recurso e reconsideração na sanção não se misturam.

Três peças, três momentos e uma intimação para cada uma. O quadro que a Lei 14.133 desenha, e onde o rito da Lei Anticorrupção muda tudo.

Cleber Odorizzi OAB/SC 36.968

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Neste artigo

Na Lei 14.133, abre em nova aba a defesa (arts. 157 e 158, abre em nova aba) vem antes da decisão. Recurso (art. 166, abre em nova aba) ou pedido de reconsideração (art. 167, abre em nova aba, só na inidoneidade) vêm depois, em 15 dias úteis da intimação. A lei dá efeito suspensivo só ao recurso e à reconsideração (art. 168, abre em nova aba), e não à defesa. Cada peça tem a sua intimação.

O ofício chega com a palavra intimação e a pergunta vem junto. É para me defender, para recorrer ou para pedir reconsideração? A confusão é comum, porque as três peças falam com a mesma autoridade, sobre a mesma sanção, e na Lei 14.133/2021 todas têm 15 dias úteis. Mas não são a mesma peça, e pela leitura do texto a lei as põe em momentos e com efeitos separados.

A diferença começa no momento. Defesa é a manifestação da empresa antes da decisão, com as provas que pretende produzir. Recurso e pedido de reconsideração vêm depois da decisão, e cada um cabe contra sanções diferentes. É esse desenho que o quadro abaixo resume.

  • A defesa vem antes. Na multa, é facultada em 15 dias úteis da intimação (Lei 14.133/2021, art. 157). No impedimento e na inidoneidade, é defesa escrita em 15 dias úteis, com a especificação das provas, perante comissão de dois ou mais servidores estáveis (Lei 14.133/2021, art. 158, abre em nova aba).
  • O recurso vem depois da decisão e cabe contra advertência, multa e impedimento, em 15 dias úteis da intimação (Lei 14.133/2021, art. 166).
  • O pedido de reconsideração vem depois da decisão e é o único meio contra a declaração de inidoneidade, também em 15 dias úteis da intimação (Lei 14.133/2021, art. 167).

O que separa a defesa das outras duas é o efeito. A lei dá efeito suspensivo ao recurso e ao pedido de reconsideração, e a defesa não aparece na frase.

O recurso e o pedido de reconsideração terão efeito suspensivo do ato ou da decisão recorrida até que sobrevenha decisão final da autoridade competente.
Art. 168, caput · Lei 14.133/2021

Na leitura do texto, antes da decisão há acusação, e não pena. A sanção só existe depois dela, e quem depende de suspender uma sanção precisa de recurso ou de reconsideração, e a lei não dá esse efeito à defesa.

Os prazos de cada rito já estão em processo sancionador tem um rito para cada sanção e em prazo de recurso em licitação se conta em dois tempos. Aqui o assunto é o outro, a troca de uma peça pela outra.

O erro de trocar uma peça pela outra

O erro é tratar a defesa já apresentada como se ela fosse a resposta à decisão. Ou achar que, tendo se defendido, a empresa já contestou o que vier. Essa é a leitura do texto, porque a lei põe cada peça em momento e efeito próprios, e a defesa não aparece no art. 168, abre em nova aba.

A Lei 14.133/2021 não diz o que o órgão faz com uma defesa tratada como pedido de reconsideração. É omissão da lei, e não regra afirmativa. Nas ementas do STJ e nos acórdãos do TCU que conferi, nenhuma decisão trata disso. O que a lei diz é que o recurso e a reconsideração têm marco e efeito próprios. Não localizei decisão sobre peça com o nome errado, e o risco de o órgão não conhecer o pedido é hipotético. A Lei 9.784/1999, art. 63, abre em nova aba, não lista o nome errado entre os casos de não conhecimento, e o art. 2.º, parágrafo único, IX, abre em nova aba, fala em formas simples.

A expressão intenção de punir também não está na lei. O art. 158, abre em nova aba manda a comissão avaliar “fatos e circunstâncias conhecidos” e intimar a empresa para a defesa (Lei 14.133/2021, art. 158). Intenção de sancionar não consta da lei, e no processo da Lei Anticorrupção, abre em nova aba o nome é outro, indiciação.

Cada peça tem o seu marco, que é a intimação. O art. 166 da Lei 14.133/2021, abre em nova aba conta o prazo da intimação. Mas, se houve disponibilização na internet ou publicação, confira o art. 183, § 1.º, abre em nova aba, e não conte com prazo aberto sem confirmar. A contagem dos prazos da lei tem regra própria. Na notificação pelos correios, o dia do começo é, salvo disposição em contrário, o da juntada aos autos do aviso de recebimento, e quando a informação é disponibilizada na internet, o primeiro dia útil seguinte (Lei 14.133/2021, art. 183, § 1.º).

O modo de intimar, porém, não é uniforme, e as decisões que conferi, todas pela ementa, mostram isso. A Segunda Turma do STJ, numa suspensão temporária (termo da lei anterior), pela ementa, entendeu que a intimação por Diário Oficial não vale sem previsão legal e que a Lei 9.784/1999 pede a intimação pessoal (AgInt no RMS 46496, 18/06/2025). A Primeira Seção, num processo federal regido pelo Decreto 11.129/2022, abre em nova aba, usou a publicação no Diário Oficial como marco do prazo de 120 dias do mandado de segurança, e não a intimação pessoal posterior (MS 31308, 13/05/2026). A Seção tratou isso como peculiaridade do caso, em que a impetrante já sabia do processo e aguardava a reconsideração (item 4 da ementa).

São regimes diferentes, e as duas decisões parecem conciliáveis, porque o caso teve peculiaridade. Na dúvida sobre qual conta, a conduta segura é contar do que vier primeiro. A segunda decisão foi contra a empresa, por decadência, e não é promessa de nada. O mandado de segurança tem outro limite, que é não caber contra ato sujeito a recurso com efeito suspensivo (Lei 12.016/2009, art. 5.º, I, abre em nova aba), como mostra o que a lei oferece para suspender sanção já no CEIS.

Dois ritos e o registro da sanção

Há ainda uma bifurcação que muda nome e prazo. Quando o mesmo fato é infração da Lei 14.133/2021, abre em nova aba e também ato lesivo da Lei Anticorrupção, abre em nova aba, os dois são apurados e julgados juntos, nos mesmos autos, pelo rito e pela autoridade da Lei Anticorrupção (Lei 14.133/2021, art. 159, abre em nova aba).

No processo federal da Lei Anticorrupção, a comissão indicia a empresa e a intima para defesa escrita em 30 dias (Decreto 11.129/2022, art. 6.º, abre em nova aba). Depois da decisão, o pedido de reconsideração tem efeito suspensivo e prazo de 10 dias contados da publicação (Decreto 11.129/2022, art. 15, abre em nova aba). Prazo, marco e nome são outros, e estão em prazo de defesa no PAR e recurso no PAR federal. O decreto é federal, e o regulamento de estado ou município não foi conferido aqui.

O registro no cadastro tem três regras que convivem. A lei manda informar a sanção em 15 dias úteis, contados da aplicação (Lei 14.133/2021, art. 161, abre em nova aba). A portaria da CGU fala em 5 dias úteis da publicação do ato, salvo disposição legal em contrário (Portaria Normativa CGU 75/2023, art. 14, abre em nova aba). E o decreto federal manda registrar imediatamente após o transcurso do prazo do pedido de reconsideração ou do recurso, ou da publicação da decisão final, “quando lhe for atribuído efeito suspensivo pela autoridade competente” (Decreto 11.129/2022, art. 61, abre em nova aba).

Esse último artigo é federal e não obriga estado nem município por si. Para outro ente, o argumento possível junta o art. 168, abre em nova aba (a sanção fica suspensa) com o art. 161 (informar a sanção aplicada), e é só isso, um argumento. Registrar como efetiva uma sanção suspensa é incoerente, mas leitura de texto não é regra.

O TCU tem duas decisões que ajudam a ver o tema, com ressalva de regime. Na inidoneidade que é dele, aplicada pelo próprio tribunal com base na lei orgânica dele, decidiu que a empresa incluída no cadastro antes do trânsito em julgado teve restrição indevida, e que esse tempo conta como pena cumprida (Acórdão 4047/2020-Plenário, abre em nova aba). E tratou o lançamento intempestivo de sanção como falha administrativa, em contratos da lei antiga, e acolheu as razões de justificativa do gestor (Acórdão 2845/2026-Primeira Câmara, abre em nova aba). Nenhuma das duas decide que registro antes do recurso é ilegal na Lei 14.133/2021.

Quem informa e corrige o cadastro é o órgão sancionador, que pode alterar a situação da sanção a qualquer tempo, mediante justificativa (Portaria Normativa CGU 75/2023, art. 8.º, abre em nova aba).

Se o ofício que chegou à sua empresa tem a palavra defesa, recurso ou reconsideração e você não sabe qual delas está em jogo, fale comigo. Eu começo pela sanção, pela lei do fato e pela data da intimação.

Perguntas frequentes
Defesa e recurso são a mesma coisa em processo de sanção?
Não. A defesa vem antes da decisão (Lei 14.133/2021, arts. 157 e 158, abre em nova aba). O recurso e o pedido de reconsideração vêm depois e têm efeito suspensivo (arts. 166, 167 e 168, abre em nova aba). Cada peça tem o seu momento e a sua intimação.
Apresentei a defesa quando fui intimado. Ainda posso recorrer da decisão?
A lei prevê recurso ou reconsideração contra a decisão, sem condicioná-los à defesa (Lei 14.133/2021, arts. 166 e 167). O prazo corre da intimação da decisão. Contra a inidoneidade o meio é o pedido de reconsideração.
Quando a sanção só vai para o CEIS, depois do recurso?
Depende do ente. A Lei 14.133/2021 manda informar em 15 dias úteis da aplicação (art. 161). No plano federal, o Decreto 11.129/2022 manda registrar após o prazo do recurso ou da decisão final, “quando lhe for atribuído efeito suspensivo pela autoridade competente” (art. 61).
Quem responde pelo registro da sanção no cadastro?
O órgão que aplicou a sanção informa e mantém os dados atualizados (Lei 14.133/2021, art. 161) e pode alterar a situação a qualquer tempo, com justificativa (Portaria Normativa CGU 75/2023, art. 8.º). O TCU já qualificou como falha administrativa um registro tardio no Sicaf/CEIS, em contrato da lei anterior (Acórdão 2845/2026-Primeira Câmara).

Este texto é informativo e geral. Não trata de caso concreto e nada aqui promete aprovação ou resultado.

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